We are searching for you. Please wait...
EXECUTIVE VOICE SERIES

Entrevista com Mauricio Cunha, diretor executivo do ChildFund Brasil

Quanto custa, de verdade, mudar a vida de uma criança no Brasil

Mauricio Cunha, diretor executivo do ChildFund Brasil, explica por que o menor custo administrativo raramente significa o maior impacto, como o apadrinhamento no Brasil está mudando e o que ele protegeria em primeiro lugar se os orçamentos públicos encolherem.

Mauricio Cunha, diretor executivo, ChildFund Brasil
Interview by thedotgood’s editorial desk
Share
Um programa do ChildFund Brasil. Foto: Jake Lyell / ChildFund

O ChildFund Brasil trabalha há décadas com crianças e famílias no Brasil, como parte da rede global ChildFund. O que ele faz hoje que não fazia dez anos atrás, e o que deixou de fazer?

O trabalho do ChildFund Brasil sempre evoluiu com o país e, sobretudo, com as prioridades e aspirações das comunidades que atendemos. Há dez anos, nossa abordagem se concentrava nas necessidades urgentes e no acesso a serviços básicos. Reduzir a vulnerabilidade continua essencial, mas hoje nossa ambição vai muito além. Agora ajudamos crianças, famílias e comunidades a conquistar mais autonomia e a assumir o protagonismo do próprio desenvolvimento. Em vez de tratar as consequências da pobreza, queremos enfrentar suas causas e criar as condições para uma mudança duradoura. A inovação também transformou nossa forma de trabalhar. Estamos levando nossas tecnologias sociais, as metodologias que aplicamos com as comunidades, para o mundo digital, e enfrentando ameaças bem menos visíveis uma década atrás, como o abuso e a exploração de crianças e adolescentes na internet. Por fim, fortalecemos nossa gestão por resultados. Indicadores e evidências mostram com muito mais clareza o impacto social dos nossos programas, o que nos permite aprender, adaptar e continuar melhorando.

O apadrinhamento está no centro do modelo do ChildFund. Como mudou a relação entre os padrinhos brasileiros e as crianças e comunidades que apoiam, e o que um padrinho recebe, de fato, hoje?

Milhares de brasileiros continuam acreditando na nossa causa e apadrinham uma criança, abrindo oportunidades e esperança para aquela menina ou aquele menino. Mas o apadrinhamento vai muito além do apoio financeiro. Em essência, ele cria um vínculo genuíno entre duas pessoas, capaz de enriquecer as duas vidas. As palavras que usamos dizem algo sobre esse vínculo: quem apoia é padrinho ou madrinha, e a criança, afilhado ou afilhada. Mais do que uma doação, buscamos uma relação duradoura. Os padrinhos podem acompanhar o desenvolvimento da criança ao longo dos anos. Trocam cartas, enviam presentes, recebem notícias regulares da comunidade, e alguns chegam a viajar para conhecer o afilhado, em visitas que o ChildFund organiza com muito cuidado. Essa relação de um para um é uma das grandes forças do nosso modelo. Ela permite que os doadores vejam o lado humano da sua contribuição e se sintam parte de uma jornada de transformação mais longa, o que ajuda a explicar por que muitos permanecem conosco por anos. No fim, ela aproxima pessoas que de outra forma nunca teriam se conhecido, unidas pela possibilidade de mudar o futuro de uma criança.

Cerca de dois terços das doações do ChildFund Brasil vêm do exterior, por meio da rede ChildFund, e o número de crianças apadrinhadas por doadores de fora do Brasil caiu em 2025. Como você vê a evolução desse equilíbrio, e uma participação brasileira maior é um objetivo em si? Projetos de lei em tramitação no Congresso, como o PL 1659/2024, restringiriam ou condicionariam o financiamento estrangeiro de organizações da sociedade civil brasileiras: como eles poderiam afetar o ChildFund Brasil?

O equilíbrio já está mudando: segundo nossos dados mais recentes, quase metade da receita total do ChildFund Brasil já é captada no Brasil. A queda do apadrinhamento internacional não é nova. Nós a acompanhamos há vários anos, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Queremos que a participação brasileira continue crescendo, mas o financiamento estrangeiro segue vital para a nossa missão. Nosso histórico de impacto comprovado, integridade, transparência, governança sólida e programas de excelência deve nos permitir ampliar de forma significativa a captação no país nos próximos anos. O PL 1659/2024 ainda tramita no Congresso. Esperamos que a lei final preserve a cooperação internacional legítima. Restrições que limitem fortemente o acesso a recursos do exterior teriam consequências graves para a sociedade civil brasileira e, no fim, para as crianças, famílias e comunidades vulneráveis que dependem do seu trabalho.

Eficiência e prestação de contas são essenciais, mas o menor custo administrativo não significa necessariamente o maior impacto.

O ChildFund Brasil esteve entre as dez mais rápidas de 33 grandes organizações brasileiras no primeiro benchmark de info-biorritmo da thedotgood: publicou suas demonstrações financeiras auditadas e seu relatório anual logo após o encerramento do exercício. Por que publicar cedo importa para vocês, e quem percebe isso?

A transparência é fundamental para nós. Publicar com rapidez nossas demonstrações financeiras auditadas e nosso Relatório de Sustentabilidade não é apenas uma questão de conformidade. É uma questão de prestação de contas: mostrar aos nossos doadores, parceiros, comunidades, Conselho, colaboradores e ao público em geral que o ChildFund Brasil merece sua confiança. Ficamos honrados com o reconhecimento da thedotgood, celebrado com entusiasmo em toda a rede do ChildFund International. Ele confirmou um compromisso construído com constância ao longo de muitos anos. Desde 2015, nosso Relatório de Sustentabilidade segue os padrões da Global Reporting Initiative (GRI). Nós o vemos como mais do que uma publicação institucional: é a forma como prestamos contas dos nossos resultados, do nosso impacto, da nossa governança e do uso dos recursos. Ao longo dos anos, acreditamos que ele se tornou uma referência muito além do terceiro setor. A credibilidade se constrói com ações consistentes. Divulgar informações de qualidade com rapidez é uma delas, e pretendemos manter esse compromisso nos próximos anos.

O que financiadores e doadores mais costumam entender mal sobre o custo de gerar resultados duradouros para as crianças?

Um equívoco comum é achar que maximizar resultados significa destinar quase todo o financiamento às atividades na ponta. Na realidade, resultados duradouros para crianças e famílias vulneráveis também exigem organizações fortes e bem geridas por trás dos programas. Uma execução de qualidade depende de equipes qualificadas, salvaguarda, monitoramento e avaliação, tecnologia, controles financeiros, governança e capacidade operacional. Projetos que não financiam essa infraestrutura essencial podem, na verdade, aumentar os riscos de implementação e enfraquecer aos poucos as próprias organizações das quais se espera o trabalho. Os financiadores também tendem a subestimar a complexidade do desenvolvimento social. A pobreza é multidimensional; os problemas que as crianças enfrentam nunca têm uma causa única nem uma solução rápida. Uma mudança real exige trabalhar ao longo do tempo com famílias, comunidades, organizações locais, sistemas públicos e outros atores. É por isso que acreditamos tanto em investimentos plurianuais e em abordagens sistêmicas. Eficiência e prestação de contas são essenciais, mas o menor custo administrativo não significa necessariamente o maior impacto. O que importa é a qualidade, a durabilidade e o valor de longo prazo do que conquistamos para as crianças.

Como vocês avaliam que a vida de uma criança mudou graças ao trabalho do ChildFund Brasil? Cite um resultado de que se orgulha e um indicador que o decepcionou, e o que vocês mudaram a partir dele.

Nossos sistemas de monitoramento acompanham regularmente as mudanças na vida de crianças, adolescentes e suas famílias, com medidas adaptadas às tecnologias sociais aplicadas em cada comunidade. Mas por trás de cada indicador há uma pessoa real, com uma história própria. Jean é um exemplo de que me orgulho especialmente. Ele cresceu em uma comunidade quilombola rural em situação de alta vulnerabilidade. Os anos com o ChildFund abriram para ele uma nova perspectiva sobre o que seu futuro poderia ser. Hoje, como bolsista, ele estuda ciência política na Northwestern University, nos Estados Unidos. Davidson é outro. Ele integra hoje o Comitê de Participação de Adolescentes (CPA) do Conanda, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, onde leva a voz dos jovens aos debates nacionais e à formulação de políticas sobre seus direitos. Nem todo indicador avança como gostaríamos. Os resultados de aprendizagem básica, sobretudo em português e matemática, continuam difíceis, porque dependem muito de problemas estruturais do sistema educacional brasileiro. Isso nos ensinou uma lição importante: um impacto duradouro exige ir além das intervenções individuais, rumo a parcerias e abordagens sistêmicas que atuem sobre o ambiente mais amplo em que as crianças aprendem e crescem.

Qual parceria (pública, privada ou com comunidades) mais contribuiu para os resultados do ChildFund Brasil nos últimos anos, e por que deu certo?

Poderia citar muitas, mas duas parcerias recentes com financiadores privados se destacam pelos resultados. Com a LEGO Foundation, realizamos o Brinca e Aprende Comigo, que alcançou milhares de famílias brasileiras com parentalidade positiva, disciplina sem castigos físicos e brincadeiras em família, práticas que fortalecem os vínculos e previnem a violência contra crianças. O projeto também apoiou nossa atuação em defesa de uma lei federal que reforça o direito da criança ao brincar e a uma criação segura. Seus benefícios podem, assim, chegar a milhões de crianças, muito além das comunidades que atendemos diretamente. Com a ADM no Maranhão, um dos estados socialmente mais vulneráveis do Brasil, combinamos educação ambiental, redução de riscos de desastres e segurança alimentar em escolas públicas, levando mudanças reais às comunidades escolares envolvidas. Uma segunda fase já está em andamento em mais escolas, e o modelo está sendo levado para a Argentina. As duas deram certo porque foram além da relação habitual entre financiador e executor. Tornaram-se verdadeiras parcerias institucionais, baseadas em propósito comum, confiança, qualidade técnica e excelência na execução.

Mauricio Cunha com crianças em uma comunidade apoiada pelo ChildFund Brasil. Foto: ChildFund Brasil

O presidente Lula acaba de conquistar um quarto mandato e, como escreveu o Financial Times em 27 de outubro, o governo pode agora enfrentar um acerto de contas fiscal após a turbulência nos mercados brasileiros. Se os orçamentos públicos encolherem, qual política para crianças e adolescentes você mais gostaria de ver protegida, e o que organizações como o ChildFund Brasil podem fazer, ou não fazer, para cobrir as lacunas?

As previsões mais realistas apontam para um cenário fiscal e econômico difícil. A forte reação do mercado à vitória do presidente Lula reflete essas preocupações, e as políticas sociais e o investimento público podem ficar sob pressão adicional. Se uma área precisa ser protegida, é a prevenção e a resposta a todas as formas de violência contra crianças e adolescentes: física, psicológica, sexual e institucional, presencial e online. O mundo digital criou novos riscos e ampliou os antigos, e em alguns aspectos perdemos terreno na proteção das crianças nos últimos anos. O ChildFund Brasil tem uma vantagem: seus programas e projetos não dependem de financiamento governamental. Isso nos dá certa independência e resiliência para continuar atendendo as comunidades quando os orçamentos públicos apertam. Ainda assim, a sociedade civil não pode nem deve substituir o Estado. Podemos desenvolver soluções inovadoras, fortalecer sistemas comunitários de proteção, produzir evidências, defender políticas eficazes e atender pessoas que os serviços públicos têm dificuldade de alcançar. Mas só o governo pode garantir cobertura universal, regulação adequada e sistemas públicos robustos na escala de que o Brasil precisa.

A inteligência artificial está chegando às escolas, às famílias e a organizações como o ChildFund Brasil. Onde ela poderia ajudar as crianças atendidas pelo ChildFund Brasil, e onde você vê riscos?

Não vejo a inteligência artificial e a dimensão humana como opostas. Para que a tecnologia contribua para uma sociedade melhor, as duas precisam se reforçar. A IA pode ampliar o acesso ao conhecimento, apoiar uma aprendizagem mais personalizada, ajudar a identificar vulnerabilidades mais cedo e dar às organizações ferramentas melhores para entender necessidades e medir impacto. No ChildFund Brasil, lançamos uma iniciativa de inovação e IA para tornar nossos processos internos mais eficientes e aprimorar nossa relação com doadores, parceiros, comunidades e outros públicos. O objetivo não é substituir pessoas, mas liberá-las para o que exige empatia, relacionamento, discernimento e criatividade. Ao mesmo tempo, precisamos estar muito atentos aos riscos que a IA representa para as crianças: violações de privacidade, desinformação, conteúdos nocivos, exploração e novas formas de abuso online. Proteger as crianças na internet é uma prioridade global do ChildFund há anos, e a IA torna isso ainda mais urgente. Vamos continuar fortalecendo esse trabalho para que a tecnologia se desenvolva como uma força de oportunidade, com os direitos e a segurança das crianças no centro.

Daqui a cinco anos, que resultado lhe mostraria que o ChildFund Brasil teve sucesso?

Definimos uma “Ambição 2030” estruturada em dez indicadores estratégicos de impacto e sustentabilidade. Até 2030, queremos ter feito uma diferença duradoura para um milhão de crianças, adolescentes, jovens, famílias e membros das comunidades, ajudando a criar as condições para que as crianças cresçam saudáveis, educadas, capacitadas e seguras. À medida que crescemos, queremos manter a excelência dos nossos programas, fortalecer a proteção de crianças e adolescentes e garantir que suas vozes sejam ouvidas e que participem de fato das decisões que afetam suas vidas. Queremos também nos tornar uma organização mais forte e resiliente, com financiamento cada vez mais diversificado e recorrente e uma posição clara de referência em desenvolvimento infantil e salvaguarda no Brasil. Então, se daqui a cinco anos tivermos ganhado escala sem comprometer a qualidade, aprofundado nosso impacto para as crianças e construído uma organização capaz de levar esse impacto adiante, vou considerar isso um verdadeiro sucesso.

O ChildFund Brasil é o nº 16 do Brazil Top 100 2026 da thedotgood e o nº 188 do seu World 200. Leia o perfil do ChildFund Brasil na thedotgood → Visite o ChildFund Brasil em childfundbrasil.org.br.

Read this interview in English →

Share

Related articles